Mas o teatro segue fazendo o que sempre fez: sobreviver. É incrível pensar que, numa época em que nenhuma peça está em cartaz, todas as peças estão em cartaz.
Caminhei por um trecho sem saber aonde ir: um instinto mais poderoso que a vontade me distanciava de minha morada. Onde buscar coragem para prosseguir? Eu receberia naquela noite a visita de um espectro e esta era uma ideia mortificadora, uma perspectiva aterrorizante.
Para começar, o sujeito só precisa de esperança quando tá mergulhado na desgraça. E se ele precisa de esperança, o que tem de bom nisso?
Sair do ensimesmamento, admitir a fragilidade e a fantasmagoria de todos os entes vivos também são formas de vitalidade. Que não estejamos imunes a elas.
É fácil estender meus dedos tortos:
na Eternidade, estamos todos mortos.
Onde o sabor de aventura na viagem até às cidades dos festivais? Onde o cheiro das salas escuras, pescoços alongados para ver melhor o grande écran? Onde as festinhas com espectadores e realizadores enfim juntos no mesmo plano?
A espera no táxi, o trânsito sem fim, o encontro… Luza empresta o ambiente de “Luzia Luluza”, cantada por Gilberto Gil, mas ao contrário da letra dos anos 60, a…
Deve-se encontrar algum crítico que não queira aparecer mais que a obra a ser criticada (excluso, portanto, o presente resenhista), um que talvez assine com pseudônimo, sem que isso seja passível de ser tachado de covardia. Algum estrangeiro, ou candidato a santo.
Apesar das limitações prospectivas desse recorte institucional lacunar, inclusive pela dificuldade de acesso a dados históricos de museus e galerias, se no Brasil temos alguns momentos de esperança, na maioria do circuito internacional a representatividade de gênero é um assunto incipiente.
Nossa homenagem ao monumental Pier Paolo Pasolini no ano de seu centenário
Sobre os espetáculos “Mulher Melancia” de Janaína Lobo (PI) e “Manifesto Transpofágico” da Renata Carvalho (SP) Os atos de nomeação agem e marcam o mundo com seus efeitos de representação….
Sua figura é, ao mesmo tempo, culta, politizada e debochada, além de sempre muito exigente com a música, sem modéstia: Gerônimo está na linhagem de Xisto Bahia, Dorival Caymmi, Caetano e Gil, ao melhor estilo da cidade d'Oxum – aquela que é doce e vive se olhando no espelho, sem dispensar um tanto de vaidade.
E o ouvinte de hoje não quer tanto escutar músicas, no sentido antigo, mas escutar gestos com os quais possa se identificar. Queremos o gesto único, insubstituível, e a coragem que dele emana.
Contemporâneo, antigo e presente, no elegante formato diminuto, ele vive a tradição da pintura no auge de sua forma.
O cinema, em seu modelo de exibição, vem sendo particularmente afetado. Os gigantes do streaming, que já se mostravam vorazes, avançam com muito poder de fogo numa luta cada vez mais desigual. Toda a cadeia de exibição está sendo desmontada.
Mas que raio de cabeças tinham essas pessoas para batizarem o local com tal nome? Será que a carne amarga das pombas era mesmo gostosa? Ora, ora, nome é coisa importante, nome é algo que se materializa nas identidades dos lugares, nome é força simbólica.
Ainda hoje, muitas pessoas não possuem registros de seus familiares mais próximos. Por isso, volto a perguntar: quem tem direito à uma fotografia?
o homem caminhou pelo corredor do hospital, rumo à saída. entrou no vectra ainda com a sensação de que carregava Sim, no corpo
uma doença silenciosa e secreta que era a própria Vida.
Para além da minha habitual rotina de trabalho, haveria então uma estranha forma de vida, para mim antes desconhecida? Uma vida invisível como a das plantas, que antes eu mal notava e logo passei a regar diariamente?
O kaminho decolonial ou kontra-kolonial é longo e cheio de pedras, mas não são as pedras que devem ser condenadas: as pedras nos cantam sobre os futuros, são nossas aliadas.
As fotografias sujam a presença pura da performance, tiram sarro dela, pedem revisão histórica e clamam pelo acerto de contas.
os dois velhos pelados atrás da moita vieram com todos os seus metais espetáculo-seculares: uns trompetes gemem; outros tossem; os sax se arrastam transtemporalmente — dos porões escuros da tropicália-DOPS às ondas superfici-digitais do ôjurduí — soando nos pavilhões dos nossos ouvidos feito lesmas radioativas.
A agonia é uma vivência íntima da infância, bastando que não encaremos com olhos de pais cada um desses espécimes infantis. Pois os bebês estão agonizando a todo momento, e isso mesmo ou principalmente quando estão sorrindo.
Dessa obra-sumidouro, verdadeira noite dentro da noite, brota uma flor canibal contagiante, espécie de erva daninha, uma hera senciente que se espalha e nos enlaça, nos levando de volta para o torvelinho de que ela mesmo saiu.
O brasileiro estava desesperado para gostar de alguma coisa. Era morte demais, pobreza demais, meses demais vendo o país naufragar, sem poder fazer nada além de bater uma panela. A ideia de ver um grupo de pessoas trancadas em uma casa, sendo obrigadas a conviver umas com as outras, pode ter soado como uma solução.
O Brasil é um barril de pólvora ao lado de uma fogueira. Há disputa política e ideológica – o ovo da serpente que foi chocado oficialmente em 2018 –, milhões…
Sempre fico me perguntando por que em Salvador há o que chamo de “síndrome de reinvenção da roda”. Explico: cada vez que se faz alguma coisa, há certa negação do passado de ações similares e até parece que incomoda reconhecer que projetos do mesmo tipo podem somar na consolidação de trajetórias e circuitos.
“Baiafro é uma proposta cultural, a busca de uma nova linguagem em música e em dança, que reflita os anseios e o modo de ser do homem atual. Por ter nascido na Bahia, é negro, por ser brasileiro, mestiço e mutante, como todo o produto do terceiro mundo”.
(Esta é uma versão digital do texto publicado na revista Barril Impressa #1 e não inclui as notas nem as ilustrações do artista Milton Mastabi. Para adquirir a Revista clique…
e sem a possibilidade de dar tudo errado não há teatro, se bem que a possibilidade de dar tudo errado parece ser a essência mesma do teatro, prescindindo de qualquer corpo ou espaço amplo, afinal tudo tem a possibilidade de dar errado...
Não sou um crítico buscando ser histórico: sou um poeta oferecendo sua apreciação; ou seja, completude, também pelo espaço, é impossível. Não obstante, diante do negacionismo crítico que decreta sobre a poesia que está “tudo parado, nada acontece”, repito Galileu e digo eppur si muove.
Como produzir presença, intimidade e cumplicidade com um desconhecido? E se essa pessoa fosse inventada e tivesse memórias e desejos produzidos por um grupo de pessoas? E se as histórias compartilhadas ao pé do ouvido e na palma da mão quisessem te fazer experimentar a passagem do tempo?
Até então reagia às agressões enquanto um homem que apresentou uma performance. E enquanto homem, eu tenho medo. Enquanto artista, o medo existe. É diferente. Eu não “tenho” medo. O medo “está lá”.
Rolê nas ruínas é uma ópera rock de favela, contemporânea e realista, sem as cafonices de época dos clássicos do gênero, como alienígenas, seitas religiosas e o sofrimento que é ser um rockstar milionário.
Duas pessoas já estavam dançando quando a plateia entrou, ou seja, era o começo e, ao mesmo tempo, já havia começado. Penso: sempre que outra pessoa chega já tem coisa acontecendo. Vou me dando conta ao longo do trabalho alagoano Dança Monstro, dirigido por Telma César, que, considerando o chão de brasa sobre o qual estamos todos, frequentemente não há marco zero ou ponto inaugural.