Para além da minha habitual rotina de trabalho, haveria então uma estranha forma de vida, para mim antes desconhecida? Uma vida invisível como a das plantas, que antes eu mal notava e logo passei a regar diariamente?
As solidões da infância, sejam físicas ou metafóricas, são um terreno árido que demanda muitas águas. E estivemos, nós adultos, todos nele, inevitavelmente.
É curioso demais reviver o não-vivido. Ter aquele tipo de memória do que foi vivido por outros, mas não experienciado pessoalmente. Mais curioso ainda, é imaginar que essa memória existe, de alguma maneira, porque um pedaço de si já esteve no passado, no corpo e mente de pessoas que sequer sabemos o rosto.
É preciso se adaptar, deixar que o corpo seja invadido pelo cinemão, abandonar o mundo-de-fora; os carros que atravessam barulhentos as avenidas, os casais que passeiam de mãos dadas...